Envelhecer para além de um tempo de perdas

Por Ladyjane Brasileiro, psicóloga e psicanalista
@ladyjanebrasileiro
Quando falamos em envelhecimento feminino, é comum que a conversa seja rapidamente conduzida para as perdas. Perde-se a juventude, a aparência, a agilidade do corpo, alguns papéis que por muitos anos organizaram a vida. Os filhos crescem, os pais envelhecem, as relações se transformam. Em muitos casos, chegam também a aposentadoria, a viuvez e mudanças importantes na rotina.
Tudo isso é real. Mas será que envelhecer pode ser reduzido apenas a essa narrativa?
Os números ajudam a compreender por que essa discussão se tornou tão necessária. Estamos vivendo mais. E, sobretudo, as mulheres estão vivendo mais.
Dados da Organização Pan-Americana da Saúde mostram que, em 2017, 54% da população mundial com 60 anos ou mais era composta por mulheres. Entre as pessoas com 80 anos ou mais, elas já representavam 61% desse grupo. A expectativa é que essa diferença continue crescendo nas próximas décadas. Entre 2020 e 2025, a expectativa de vida ao nascer das mulheres deverá superar a dos homens em aproximadamente três anos.
No Brasil, essa realidade também se confirma. Há mais mulheres idosas do que homens idosos. No Nordeste, no Ceará e em Fortaleza, os dados seguem a mesma tendência. Vivemos uma velhice predominantemente feminina, o que se costuma chamar de a feminização da velhice.
Apesar dos dados chamarem atenção por si, essa constatação vai muito além da estatística.
Quando há mais mulheres envelhecendo, aumentam também os desafios relacionados à solidão, à viuvez, às questões financeiras, às transformações do corpo e à invisibilidade social. Muitas mulheres chegam à maturidade depois de décadas dedicadas ao trabalho, à família e aos cuidados com os outros, ao mesmo tempo em que enfrentam uma cultura que valoriza a juventude e frequentemente trata o envelhecimento feminino como algo que deveria ser disfarçado.
Pesquisadoras que estudam o tema chamam atenção para um fenômeno importante: mulheres maduras e idosas podem vivenciar situações de discriminação associadas simultaneamente ao gênero e à idade. Em outras palavras, não se trata apenas de envelhecer. Trata-se de envelhecer sendo mulher em uma sociedade que ainda atribui valor excessivo à juventude, à produtividade e a determinados padrões de aparência.
Por isso, falar sobre maturidade feminina não é apenas falar sobre idade. É falar sobre lugar social, sobre reconhecimento e sobre as possibilidades de continuar construindo uma vida com sentido em uma etapa frequentemente marcada por estereótipos.
Ao mesmo tempo, existe um outro lado dessa história que merece atenção.
A antropóloga Miriam Goldenberg observa que muitas mulheres relatam ganhos importantes ao longo da maturidade. Liberdade. Autonomia. Menos necessidade de corresponder às expectativas alheias. Mais clareza sobre o que desejam preservar e sobre aquilo que já não faz sentido carregar.
Isso não significa romantizar o envelhecimento. Há desafios concretos que acompanham esse processo. O que está em questão é reconhecer que a vida não se encerra quando determinados ciclos terminam. Muitas vezes, ela apenas muda de forma.
Na clínica, escuto frequentemente mulheres que chegam à maturidade perguntando-se quem são agora. Depois de tantos anos dedicados ao trabalho, aos filhos, à família ou às demandas dos outros, surge uma pergunta silenciosa:
o que ainda desejo para mim?
Essa talvez seja uma das questões mais importantes desse tempo da vida.
A psicanálise nos ajuda a compreender que o sujeito não se reduz à sua idade cronológica. Existe uma história que continua em movimento. Existem lembranças que podem ganhar novos sentidos. Existem projetos que ainda podem nascer. Existem partes de nós que permanecem vivas, mesmo quando o espelho insiste em mostrar apenas a passagem do tempo.
Envelhecer não é alijar a própria história. É continuar escrevendo-a.
Por isso, gosto de pensar a maturidade não apenas como um tempo de balanço, mas também como um tempo de criação. Um momento em que podemos revisitar caminhos percorridos, reconhecer conquistas, elaborar perdas e, sobretudo, abrir espaço para aquilo que ainda deseja existir.
Talvez uma das maiores violências que nossa cultura imponha às mulheres maduras seja a ideia de que, a partir de certa idade, já não há muito mais a sonhar. Como se o desejo tivesse prazo de validade. Minha experiência aponta justamente na direção oposta. Foi o que explorei na dissertação intitulada "Eu não tenho hora para morrer, por isso sonho: Envelhecimento em mulheres sob o olhar para além de um tempo de perdas"
A pesquisa é focada nos impactos psicológicos e socioculturais do envelhecimento feminino, conectando a psicanálise de Winnicott com o desenvolvimento de projetos de vida na maturidade. Para mais detalhes sobre a banca ou para ler o trabalho, você pode acessar a íntegra no Repositório da Biblioteca da Unifor.
Enquanto houver perguntas, haverá movimento.
Enquanto houver desejo, haverá vida.
E talvez envelhecer seja, entre tantas coisas, aprender a sustentar essa verdade: ainda somos capazes de nos surpreender com aquilo que podemos ser.
Para mais detalhes sobre a banca, sobre as referências bibliográficas ou para ler o trabalho, você pode acessar a íntegra no Repositório da Biblioteca da Unifor em https://unifor.br/web/guest/bdtd?course=75®istration=2319768


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