Quando a infância vira diagnóstico
- fernandacruz2
- 22 de fev.
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Por Fernanda Cruz, psicóloga e psicanalista
Nas últimas décadas, assistimos a um crescimento vertiginoso de diagnósticos psiquiátricos na infância, especialmente de quadros como Transtorno do Espectro do Autismo (TEA), TDAH (Transtorno de Déficit de Atenção e Hiperatividade). Esse aumento tem sido amplamente divulgado e, muitas vezes, apresentado como sinal inequívoco de avanço científico ou maior sensibilidade diagnóstica, no caso, os “espectros” que, conforme os manuais (DSM e CID), também são considerados. Acompanhando o fenômeno atentamente, sabemos que há uma complexa teia de associação entre múltiplos fatores e dentre eles, há também o fato da saúde mental ter se tornado nos últimos tempos um tópico de interesse da cultura.
No entanto, vejo esse cenário como motivo de grande preocupação e algo precisa ser dito com ênfase: a infância está sendo, progressivamente, tratada como mais um problema a ser regulado e corrigido.
Cadê as crianças?
A infância não é um estado fixo, tampouco um terreno estável. Ela é, por definição, tempo de constituição, de transformações rápidas, de atravessamentos intensos entre corpo, linguagem, laço social e ambiente. A tendência de converter comportamentos e impasses de um psiquismo em constituição em categorias diagnósticas rígidas significa ignorar aquilo que lhe é mais próprio: o movimento, a transição e a singularidade.
Quando a infância passa a ser lida apenas pelos seus “desvios”, o que se perde é justamente essa dimensão viva, transitória e criativa do desenvolvimento. O que vemos se consolidar é uma lógica que privilegia a nomeação precoce em detrimento do acompanhamento longitudinal; a classificação em lugar da escuta; o protocolo “padrão ouro" no lugar do trabalho interdisciplinar cuidadoso. Muitas vezes, antes mesmo de se oferecer condições mínimas de apropriação do caso, já se institui um diagnóstico que passa a organizar a vida da criança e de sua família. Crianças inquietas, desatentas, intensas, viraram rapidamente categorias clínicas.
É fundamental lembrar que todo sofrimento merece cuidado.
No entanto, cuidar não é sinônimo de patologizar. Tratar tampouco significa reduzir o sujeito àquilo que um diagnóstico descreve, nem decretar abordagens ou métodos como os mais eficazes, prescrevendo pacotes terapêuticos que desconsideram a singularidade de cada caso. Quando a nomeação antecede o tempo da elaboração, corre-se o risco de cristalizar como patologia aquilo que poderia ter sido sustentado e trabalhado como impasse do desenvolvimento.
Em todos esses contextos, há uma tensão persistente entre nomear para cuidar e nomear como ato de normatização, o que ecoa a preocupação clínica sobre patologização versus escuta.
A literatura contemporânea tem chamado atenção para esse fenômeno. Como exemplo recente, o dossiê da Revista Cult (edição 325) aponta para uma “verdadeira epidemia de diagnósticos psiquiátricos” na infância e adolescência, alertando para o modo como emoções, comportamentos e diferenças vêm sendo administrados sob uma lógica medicalizante, que estreita as possibilidades de existência e normaliza intervenções cada vez mais precoces.
No contexto brasileiro, esse movimento assume contornos ainda mais delicados. Estudos recentes indicam que a expansão dos diagnósticos de autismo, por exemplo, não pode ser compreendida apenas como efeito de maior precisão científica. Trata-se de um fenômeno social, político e econômico, que atravessa políticas públicas, a judicialização do cuidado, o mercado de serviços especializados e interesses financeiros organizados em torno do sofrimento psíquico infantil.
Ocorre lembrar o que se observou na última campanha eleitoral municipal, em que a chamada “causa do autismo” foi, em determinados contextos, cooptada e instrumentalizada de forma oportunista por atores políticos — não todos, evidentemente — que, sob o pretexto de inclusão e garantia de direitos, operaram muitas vezes pelo logro, convertendo uma pauta legítima em capital eleitoral.
Com o predomínio das práticas clínicas orientadas por diagnósticos com tendência a homogeneizar as manifestações de sofrimento psíquico na infância, ao mesmo tempo em que cresce o número de diagnósticos e laudos, persistem e muitas vezes se aprofundam, as condições de vulnerabilidade que afetam a infância: falta de creches e políticas de cuidado na primeira infância; jornadas extenuantes de trabalho dos adultos cuidadores, enfatizando a sobrecarga materna; empobrecimento do convívio familiar; intoxicação eletrônica; escassez de espaços públicos para brincar; violência cotidiana. Esses fatores não são periféricos: são componentes estruturais do adoecimento psíquico.
Diagnósticos como TDAH e TEA variam amplamente entre países, não porque a infância em si “muda”, mas porque os critérios, sistemas de saúde e de garantia de direitos, cultura e práticas clínicas mudam.
Como exemplo, os autismos, desde sempre soubemos, são quadros complexos e multifatoriais. A genética tem papel importante em muitas de suas manifestações. No entanto, a ciência contemporânea — da neurobiologia à psicanálise — é contundente ao afirmar que as experiências de vida são decisivas para o desenvolvimento humano. A plasticidade neuronal e os processos epigenéticos mostram que o ambiente, especialmente a qualidade das relações humanas, participa ativamente da constituição psíquica e cerebral.
O modo como um bebê é falado, olhado, tocado e sustentado cria ligações simbólicas e neuronais. Não nascemos prontos. Precisamos de condições favoráveis para nos estruturar como sujeitos de desejo, e isso inclui cuidar não apenas das crianças, mas também de quem cuida delas.
Escutar mães e pais é parte fundamental desse processo. Muitas vezes, são eles que, quando atentos aos seus pequenos, percebem muito antes de qualquer avaliação feita por um profissional, que algo não vai bem. E quando essa preocupação não encontra acolhida, tende a se transformar em problema. Um problema que não se elabora pode se cristalizar como sintoma. E um sintoma não acompanhado no tempo, pode se tornar um quadro cada vez mais rígido, com menores possibilidades de remissão ou reordenação psíquica.
Porém, nesse cenário onde se instala a cultura do diagnóstico, quando algo não vai bem no desenvolvimento, a complexidade própria da constituição humana, com seus impasses, conflitos e descompassos, é apressadamente nomeada, explicada e reduzida pela lógica dos chamados “transtornos do neurodesenvolvimento”.
Se tudo vira transtorno, perdemos a infância.
O que está em jogo, portanto, não é ser “a favor” ou “contra” diagnósticos. Essa é uma falsa polarização, haja vista que um diagnóstico no tempo oportuno quando, de fato, algo não vai bem na constituição psíquica, pode ser decisivo para o sujeito. A questão ética é outra: é a pressa em concluir. A pressa em medicar antes de oferecer condições de cuidado. A insistência em adaptar a criança a um mundo que, muitas vezes, é ele próprio adoecedor.
Promover saúde materno-infantil, investir em prevenção primária e secundária, sustentar políticas públicas de cuidado desde o nascimento e apostar em acompanhamento contínuo contrariam interesses poderosos - interesses que lucram com a patologização da vida. Mas não fazê-lo tem um custo altíssimo: econômico, sim, mas sobretudo simbólico.
Seguiremos, caso contrário, enxugando o gelo da psicopatologização. E, nesse processo, o que se perde não é apenas a infância de hoje, mas o futuro de toda uma sociedade. Você já imaginou quando esta geração de crianças hoje “laudadas” se tornar adulta, daqui a algumas décadas?
Pensar a infância não como anomalia, mas como diversidade, exige tempo, paciência e coragem para sustentar a complexidade sem respostas fáceis, sem atalhos diagnósticos, sem transformar o sofrimento em mercadoria. Antes de concluir que algo “não vai bem”, será que ainda sabemos reconhecer o brincar como trabalho psíquico? E mais: será que estamos oferecendo às crianças as condições mínimas para brincar, conviver, errar, inventar e se transformar?
Fontes: A expansão do diagnóstico de autismo no contexto brasileiro atual: incidências nas políticas públicas e na organização do cuidadohttps://revistas.ufrj.br/index.php/desidades/article/view/68499/43509


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